Para que servem tantos padrões de beleza?

anorexia-internoPor que o número de uma roupa interfere tanto na autoestima das mulheres? Por que não estar nos padrões nos incomoda tanto.

Tenho um histórico de me sentir pressionada socialmente por estar acima do peso desde que resolvi aparecer neste mundo. Nasci no dia 14/10/1982, medindo 50 cm e pesando algo em torno de quase 5 kg. Claro que o primeiro comentário que as pessoas faziam, segundo relatos da minha mãe, era:

– Que menina grande!

Referindo-se assim ao meu peso e às minhas várias dobrinhas.


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Por incrível que pareça nunca sofri bullying na escola. Acredito que por sempre ter tido uma postura de liderança nos grupos de amizades ou porque as crianças que me rodeavam não me viam como uma pessoa acima do peso. Contudo, a família fazia esse papel ativamente. Era toda festa de família, toda visita de tios, tias e avós e eu escutava:

– Tá gordinha, ein?

– Coeli (nome da minha mãe), por que você não leva Myrianna para um nutricionista?

E foi assim que aos 11 anos comecei a fazer minha primeira dieta. Uma dieta que, graças ao bom juízo da minha mãe, eu parei na primeira semana, pois só faltava desmaiar de tanta fome que eu tinha que passar.

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Aqui eu tinha uns seis anos

Eu era assim, uma criança que ia para a escola, chegava em casa e fazia as tarefas escolares e depois ia brincar de correr, pular, sei lá mais o quê. Nunca entendi porque me chamavam de gorda. Mas se todo mundo falava, deveria ser verdade.

Mas foi exatamente aos 11 anos que veio a primeira menstruação e aí o corpo passou por toda aquela mudança. Aos poucos minhas curvas se acentuaram. Mas isso é ser gorda? Para as pessoas fora do meu convívio familiar parece que sim.

Lembro que aos 15 anos eu tinha a altura de hoje, 1,62 cm, e pesava entre 56 e 58 kg. Até barriga chapada eu tinha! Mas as pessoas continuavam a me chamar de “gordinha”. Parei de ir para eventos familiares para evitar esses comentários.

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Eu, aos 14.

Em 1997, aos 15 anos e cursando o 1º ano do ensino médio, reprovei no colégio e minha mãe me colocou em casa o dia inteiro. Parei de fazer minhas atividades de rua (jogar vôlei, andar de bike, etc) e fiquei enclausurada só estudando para não correr o risco de perder mais um ano. E aí o peso começou a aumentar… E a minha preocupação em ficar mais gorda ainda também…

Como resolver o problema? Ler revistas adolescentes e fazer as dietas loucas que apareciam. O resultado? Eu não conseguia fazer nenhuma das dietas e me jogava de vez na comida, provando o fracasso que eu era em fazer algo tão simples: emagrecer e ser igual a todo mundo.

Aos 17/18 quando terminei o ensino médio.

Aos 17/18 quando terminei o ensino médio.

Não reprovei novamente, os anos passaram, entrei na universidade, comecei a participar do movimento estudantil, muitas cobranças políticas e acadêmicas e algumas de ordem pessoal e comecei a desenvolver um quadro depressivo que recaiu novamente na alimentação. Engordei bastante nesses anos e as dietas malucas se intensificaram nesse primeiro período. Finalizei a primeira graduação com o peso entre 73 e 76 kg. Porém, o quadro depressivo deu uma melhorada, comecei a trabalhar, entrei em um novo curso na universidade e comecei a fazer muitas coisas que eu gostava. Iniciei um projeto que tentei por vários anos: ser vegetariana. Perdi alguns quilos. Porém, a compulsão alimentar voltou com força e o peso voltou a aumentar e as dietas “milagrosas” fazendo ainda mais estragos.

Cada peso que ganhava, ficava depressiva e descontava na comida. Cheguei a pesar 89 kg em 2011. O sonho de voltar a ter os 58 kg dos 15 estava cada vez mais distante.

A pressão social agora era muito maior. Além dos familiares, tinha as lojas que não vendiam roupas para o meu tamanho. E era sempre um sofrimento. Além de não conseguir aceitar o meu corpo, tudo que começava a dar errado na minha vida eu transferia a culpa pelo fato de eu ser gorda.

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Pesando quase 90 kg em 2010.

2012 era o ano de completar os temidos 30 anos e eu não aceitava continuar daquele jeito. As doenças por conta do sobrepeso começaram a aparecer e a assustar e resolvi mudar. Vários fatores positivos na minha trajetória contribuíram para eu tentar deixar os pensamentos negativos de lado e comecei a tentativa de me adequar aos padrões de beleza impostos pela sociedade.

O pior de relatar essa história para vocês é ver que, mesmo eu tendo consciência na época que a minha luta por emagrecer era uma exigência social e não minha escolha, continuei a tentar várias coisas para alcançar um padrão inatingível e desnecessário. Triste pensar que eu passei por isso e o quanto isso me atingiu e atrasou tantos planos e sonhos.

Hoje, segundo os cálculos do IMC, ainda estou um pouco acima do peso. Dane-se o IMC, dane-se a sociedade que ainda me acha gorda por causa das minhas dobras. Estou feliz do jeito que estou, com minha barriguinha, minhas celulites. Sou feliz do jeito que sou. Comecei a desencanar da busca pelo corpo perfeito. Isso não existe e é apenas uma imposição social que oprime homens e mulheres.

Fico pensando em tantas garotas que passam por problemas muito maiores, desenvolvem doenças mais perigosas e deixam de aproveitar a vida somente para se sentir parte de um mundo que não vale a pena o esforço. Saber que cada vez mais adolescentes procuram cirurgiões plásticos para intervirem em seus respectivos corpos é assustador.

Não estou afirmando assim que estou livre das pressões. Ainda acordo, olho minhas dobrinhas e, muitas vezes, elas ainda incomodam. Mas exercito também todos os dias a me amar do jeito que eu sou.

Temos que nos perguntar constantemente o motivo por trás das mudanças que queremos fazer em nós mesmos. Por que eu quero emagrecer? O que me motiva a passar dias sem comer para alcançar um peso que talvez nem seja necessário? Por que estar fora dos padrões de beleza me deixam deprimida? São muitas as motivações para tais mudanças, se nenhuma delas for a busca por uma vida saudável, então será que elas são importantes ou são só imposições sociais desnecessárias?

A ideia de que a felicidade está em um determinado modelo de corpo deve ser combatida, pois oprime os seres humanos. E todo tipo de opressão deve deixar de existir.

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