A TV e o reforço do machismo: Paloma de “amor à vida”

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Há uma discussão muito forte entre os comunicólogos sobre o papel da televisão na sociedade. Sabe-se que este ainda é o meio de comunicação mais importante no Brasil e que as novelas são produtos consumidos por uma massa bastante considerável. Muitos estudiosos falam que a tv reflete a realidade. Eu acredito nisso também. Nada do que vemos na programação televisiva foge do aspecto real da sociedade, inclusive as ficções. Porém, é bom ressaltar que a tv não é só um espelho da sociedade, ela reforça e distribui conteúdos de acordo com suas linhas editoriais. Vide a cobertura da chamada grande mídia sobre as manifestações, distorcendo a realidade em favor dos seus anunciantes: governo do Rio, bancos e lojas. No caso das novelas a situação é bem mais gritante. Não sou grande fã desse tipo de produto, mas venho acompanhando “amor à vida” desde abril ou maio. Uma coisa vem despertando, desde lá, uma forte indignação: as personagens femininas. 

Todas as vezes que paro um pouquinho pra pensar e analisar, percebo que não existe UMA personagem feminina realmente forte, independente, bem resolvida e que não reforce descaradamente os traços machistas a que estamos expostas desde que chegamos a este mundo.

Ao apontar para uma cena em especial que foi ao ar ontem, fui questionada sobre se a tv é um reflexo da sociedade ou se ela cria uma distante da real. Bem, como falei acima, eu acho que ela é um reflexo sim da sociedade, mas ela não é imparcial. Ela mostra o que prefere e reforça o que é de interesse. Em “amor à vida”, vemos em vários momentos o reforço de preconceitos e, especialmente, do machismo.

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Na cena que resultou nesse post, Paloma e o marido estão na casa de César, pai da personagem principal. No meio da conversa Bruno, que é corretor de imóveis, vai ajudar à esposa de César a procurar uma casa. O pai de Paloma logo fala que talvez seja uma boa ideia, pois uma boa comissão poderia dar melhores condições pra Paloma. E aí você fica: como assim? isso ainda existe? Ela não trabalha? Por que Bruno tem que dar condições de vida pra Paloma? Que condições seriam essas? Mas tá certo, o personagem é declaradamente machista e homofóbico e tem o intuito de ser o ponto negativo da história. Porém lembro que em capítulos anteriores, Paloma renunciou o seu apartamento pra ir morar com Bruno porque este disse a ela que não aceitava que Paloma tivesse condições financeiras mais favoráveis do que as dele. E ela aceitou numa boa. Não houve em nenhum momento um questionamento da parte dela sobre qual seria o problema dela ser independente e bem sucedida financeiramente. Passou a cena, ela foi morar com Bruno em um bairro mais pobre e, pasmem, ela está toda empenhada em aprender a cozinhar bem pro marido dela! Nada contra cozinhar para o marido, mas dado o contexto, ela está fazendo isso para atender a um papel social de esposa que, digamos assim, já está bem ultrapassado. Para completar ela falou ao pai a seguinte frase: “Eu moro onde meu marido QUER e pode”.

Claro que fiquei chocada em assistir essas cenas e ver que, na verdade, o autor não está preocupado em momento algum em desconstruir esse pensamento machista em que nós mulheres não podemos ser bem sucedidas e temos que ter uma vida que seja de acordo com os desejos do marido. Se ele assim quisesse, seria uma boa oportunidade fazer com que Bruno mudasse de opinião, fosse morar no apartamento de Paloma e visse que, no fundo, não tem nada demais a mulher ganhar mais do que ele. Não muda em nada o sentimento que os dois têm um pelo outro. Não precisa ser motivo de humilhação.

–  Ainda existem muitas mulheres que se submetem às vontades machistas de seus companheiros?

– Claro! Muitas mesmo!

– Então a TV realmente reflete a sociedade!

– Reflete sim. Nunca disse que não, mas porque escolher reforçar o lado machista dessa sociedade? Por que não é possível romper com essas ideias retrógradas do ser mulher? Se ao menos houvesse um contraponto, a novela teria algum mérito, pois estaria mostrando o ridículo que é pensar como esses personagens. Mas não é isso o que acontece. A todo momento vemos mulheres frágeis, vulneráveis, carentes, à procura de maridos ricos, as que negam sua vida bem sucedida pela vontade do marido, as que deixaram sua carreira profissional, as que são virgens por serem gordas, as que não tem auto estima, etc.

O meu problema com essa novela é que o autor, até agora, não investe em construir contrapontos e acho muito difícil que esses venham a surgir até o final da novela. O que é uma pena, visto que seria uma boa oportunidade de mostrar um outro lado da sociedade e que também é real: mulheres bem resolvidas e que pensam o mundo de forma igualitária com os homens.

Se as novelas têm um alcance tão grande aqui no Brasil, me parece uma atitude equivocada e retrógrada de Walcyr Carrasco escolher aspectos tão negativos para caracterizar suas personagens. São vários passos para trás na luta pela igualdade e emancipação feminina. Lastimável!

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4 comentários sobre “A TV e o reforço do machismo: Paloma de “amor à vida”

  1. Tem uma personagem feminina que eu curti bastante nos últimos tempos: Laura, de Lado a Lado. Enfrentou tudo quanto foi de gente que teve que enfrentar, se separou, casou outra vez com o marido, foi trabalhar fora, começou a escrever em jornal, ganhou prêmio usando pseudônimo e, no que poderia ser a apoteose da personagem, ao se apresentar para receber o prêmio e anunciar que era ela quem escrevia, foi o marido quem fez o grande discurso e ela fez ode ao amor… ninguém merece…

    • Gente!!!! É por isso que não dá pra dizer apenas que a tv reproduz a realidade, por que a realidade é diversa e o papel social da tv não deve ser o de reforçar preconceitos e valores ultrapassados. Eu não me sinto representada em nenhuma daquelas personagens. Deve ter algum problema e definitivamente não é comigo, é da tv mesmo.

  2. Olá! Meu nome é Vitória, tenho 15 anos. Sinto obrigação de comentar este post, mesmo que seja antigo, torço para que alguém leia e dê-me atenção.
    Compartilho do mesmo desconforto sentido pela autora, cada vez que assisto a esta novela indigno-me com a futilidade e o conservadorismo da trama em relação à dignidade feminina, é repugnante.
    Hoje, 19 de dezembro, foi ao ar um dos capítulos mais escabrosos desta novela: A personagem Perstefane (seja lá como se escreva) foi exposta e humilhada diante de vários colegas e pacientes do hospital onde trabalha. Detalhes da sua vida íntima foram revelados por sua melhor amiga a um dos médicos do hospital e o assunto disseminou-se no ambiente de trabalho, virando fofoca entre os colegas da vítima. Houve uma briga em decorrência dos boatos, o EX-marido de Perstefane agrediu outro médico pra quem possivelmente a enfermeira teria se depilado… Todos os três foram parar na sala da diretora do hospital ( Paloma) para serem repreendidos. E é exatamente aí que a novela revela todo o seu teor machista e conservado: O EX- marido da enfermeira mostra-se indignado e surpreso com o fato dela ter-se depilado, ”justamente ela, que sempre foi uma moça direita e certinha!” … Como se não bastasse toda a barbaridade dita até então, o que acontece?? A Paloma e o seu vice repreendem a mulher, repreenderam justamente a Perstefane!! O velho, vice-presidente, diz à enfermeira que ”PARE DE PROVOCAR OS HOMENS” e, quando ela contra-argumenta, ele diz ”VOCÊ É MUITO ESPERTINHA PRO MEU GOSTO”…
    Céus! Fui só eu que me enfureci com isso? Não quero colocar em pauta, explicitamente, toda a ideologia machista impregnada nas frases desta cena, até porque eu acho que está tudo claro de mais. Por favor, cada um que tire as suas conclusões, não vou me estender muito, porque agora, finalmente e milagrosamente, parece que começou um programa global que realmente traz cultura e progresso para o país. #Músicaécultura

    • Vitória! Muito bom o seu comentário! É por aí mesmo. A novela é um retrocesso no que diz respeito às lutas por igualdade que nós, mulheres travamos cotidianamente. É uma novela totalmente moralista e machista. Uma pena que tenhamos uma mídia majoritariamente machista e que não nos representa.
      Por outro lado, fico muito feliz que você, aos 15 anos, já pense e perceba as coisas dessa forma. É um trabalhinho de formiguinha mudarmos essa cultura machista. Dá trabalho, é cansativo, mas pensemos que no futuro talvez consigamos ser vistas como seres humanos graças as nossas lutas.
      Um forte abraço!

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